26/12/2016

À beira do caos, Marechal Thaumaturgo ainda vive isolado e sob o domínio da velha política

Por | - 11:13
Contilnet.com -26/12/2016
O município é dos piores do Brasil quando o assunto é Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
Apesar da beleza natural, Marechal Thaumaturgo é um dos municípios mais pobres e isolados do Brasil
O município de Marechal Thaumaturgo, criado a partir de uma pequena vila desmembrada de Cruzeiro do Sul e emancipada administrativamente em 1992, cujo nome homenageia um dos heróis da luta pela anexação do Acre ao território brasileiro, no início do século XX, nos dias atuais exibe o típico aspecto de terra arrasada: o prefeito Aldemir Lopes (PT) não resolveu os problemas básicos do município e o governo estadual não faz a sua parte.
O resultado de tudo isso? O município é dos piores do Brasil quando o assunto é Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Sem contar que a cidade parece ter sido bombardeada e boa parte da população vive como com a sensação de quem teve até a esperança roubada. O retrato do caos.
Maioria das ruas da cidade estão destruídas
Situada na região mais ocidental do país, fronteira com o Peru, sudoeste do Estado, Marechal Thaumaturgo, também ligada apenas por via aérea e fluvial, é na verdade uma clareira no encontro das águas barrentas dos Rios Juruá e Amônia.
Apesar da beleza natural, é um dos municípios mais pobres e isolados do Brasil, com mais da metade de sua população (estimada em 16 mil habitantes) vivendo abaixo da linha da pobreza. Segundo fontes da própria prefeitura, cem por cento das famílias pobres estão cadastradas para recebem o benefício do programa Bolsa Família.
A reportagem da ContilNet, em parceria com a Rádio Ocidental FM 90.1, cumprindo sua missão de relatar os principais desafios que os novos prefeitos enfrentarão a partir de 2017, esteve por dois dias no município. Visitamos duas comunidades rurais (Oriente e Porangaba) e conversamos com muita gente na cidade. Omitiremos alguns nomes por razões óbvias: existe uma implacável perseguição perpetrada pelo grupo político dominante.
Os principais desafios dos novos prefeitos será fomentar o crescimento econômico para gerar e empregos e renda. Além disso, os futuros gestores precisarão resolver problemas relacionados a pagamentos das chamadas “heranças malditas” (dívidas deixadas por gestões anteriores), a questão rural e a urbanização, incluindo-se nesta última o saneamento básico integrado.
Urbanização e saneamento básico zero
O Programa de Saneamento Ambiental e Inclusão Socioeconômica do Acre (Proser), contrato de crédito celebrado entre o governo do Acre e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), destinou mais R$ 24 milhões para o município executar o propalado saneamento ambiental integrado. Entre as ações previstas, estavam a distribuição de água, a coleta e o tratamento de esgotos, a pavimentação de ruas e calçamentos, drenagens, coleta e destinação adequada do lixo, além da construção de um aterro sanitário e um porto.
Os gestores puseram uma tarja preta na placa, apagando o nome e a logomarca do Governo do Estado
Passados mais de dois anos, o que existe na cidade é apenas uma placa do projeto onde, de forma “esperta”, os gestores puseram uma tarja preta, apagando o nome e a logomarca do governo do Estado.
“Nem as máquinas da empresa Colorado estão mais aqui. Enquanto isso, a cidade está sendo destruída e ninguém sequer dá uma satisfação”, desabafou um morador, mostrando as ruas esburacadas. Todo o esgoto, que não é canalizado nem tratado, é despejado nos mananciais que cortam cidade.
Apesar de o projeto incluir a construção de um aterro sanitário, mesmo porque era uma exigência legal e cujo prazo encerrou-se em 2014, tudo o que cidade descarta é jogado em um lixão na estrada da Olaria, às margens de um curso d´água. “O que era para assegurar as condições sanitárias necessárias à qualidade de vida da população virou isso aí”, disse um funcionário público que mora nas proximidades do local. “O cheiro aqui é insuportável”.
Zona rural completamente abandonada
A situação de maior penúria, no entanto, é de quem habita na zona rural. Em uma situação completamente atípica, posto que 95% do território do município pertence a parques, reservas extrativistas ou terras indígenas, a população rural, que é obrigada a se submeter às regras das Unidades de Conservação (UC), ainda é proibida de usar o fogo.
Francisco Orleir: “Temos uma terra generosa, mas os produtores estão desestimulados”
Mesmo com o atrativo preço do feijão, cultura centenária na região, não existe um único fomento do poder público.
“Temos uma terra generosa, mas os produtores estão desestimulados ou se acomodaram com o benefício do Bolsa Família”, disse o ex-presidente da Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá (Asareaj), Francisco Orleir Furtunato da Silva, informando que alguns agricultores estão comprando alimentos na sede do município.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR), Jaílton Silva de Souza, confirma a “negligência” do poder público, afirmando que não existe uma política agrícola. “Os agricultores ainda não se adaptaram às tecnologias e estas pouco chegam a eles”, declarou, referindo-se à piscicultura e ao sistema de plantio agroflorestal. “Faltam linhas de créditos, garantia da produção, transporte para o escoamento e a aquisição de equipamentos”, enumerou o sindicalista.
A mesmíssima avaliação também é compartilhada pelo tesoureiro da Copersonho (Cooperativa Agroextrativista do Alto Juruá), Antônio Macena dos Santos, que afirma jamais ter visto uma pá de calcário ou adubo. “Também nunca vi distribuição de alevinos, a construção de um único açude, mudas de coco ou doação de ovelhas”, informou o agricultor, referindo-se aos programas agrícolas do governo estadual.
“Aqui, na comunidade Porangaba, a única coisa que existe é aquela escola caindo aos pedaços, onde os meus filhos bebem água do rio”, disse uma agricultora, que pediu para a reportagem não revelar seu nome. O vilarejo, que fica quase na fronteira com o município de Porto Walter, não possui posto de saúde, energia elétrica ou água tratada. “Nem prefeitura e muito menos Governo do Estado fazem nada”, disse outro morador da comunidade Oriente.
O império do clientelismo: o crime
“A assistência é provisória, senão vira parasitismo e clientelismo às custas do dinheiro público”. A frase do jornalista José Nêumanne Pinto ilustra bem a atual situação da prefeitura. Ao invés de dar expediente em seu gabinete, o prefeito despacha em sua própria casa, onde todos os dias se forma uma longa fila, como na época dos antigos coronéis de barranco.
Combustíveis, passagens, medicamentos, alimentos e contas de luz são os principais pleitos. “Isso é um absurdo porque benefícios são individuais, que criam vínculos de dependência mútua, ou seja, o morador tem o pedido atendido e o prefeito mantém o domínio político sobre ele”, analisou o ex-deputado Franesi Ribeiro, destacando que o gestor deveria trabalhar de forma coletiva.
A escada de acesso ao porto, uma das marcas da cidade, está quebrada
As consequências: o castigo
Em apenas dois dias caminhando pela cidade, deparamo-nos com a escada de acesso ao porto quebrada, ruas destruídas, remédios vencidos e alguns descartados inadequadamente, maquinário esculhambado e/ou se deteriorando, pessoas verdadeiramente necessitadas sem assistência, falta de medicamentos e médicos em alguns postos de saúde, escolas deterioradas e algumas sem merenda e água potável.
Depois do resultado das eleições, que culminou com a derrota do atual grupo político, as coisas pioraram. Professores e outros servidores provisórios estão com salários atrasados e fornecedores e prestadores de serviço estão sem receber.
Em uma cidade pequena onde todos se conhecem e vivem se esbarrando em qualquer lugar, poucos, só os mais corajosos, se atrevem a sair de casa à noite ou caminhar pelas ruelas escuras. A violência campeia, notadamente por causa do consumo e tráfico de entorpecentes.
Depois do programa Bolsa Família, o maior empregador do município é a droga, que está destruindo as famílias e afugentando os poucos turistas que aparecem. A juventude, que tem poucas opções de lazer, esporte ou cultura, encontra-se com o futuro comprometido.
Prefeito e secretários não quiseram falar
Tentamos falar com os secretários cujas pastas foram citadas. Nenhum quis nos receber ou mesmo contestar a reportagem. Um deles disse apenas que só o prefeito concedia entrevistas.


No mesmo dia, durante a manhã, estivemos na sede da prefeitura, mas não encontramos o alcaide por lá. Fomos à sua casa e o presenciamos dando expediente ali mesmo. Os assessores entravam e saiam levando documentos para ele assinar.
Depois de nos apresentarmos e dizermos do que se tratava, o prefeito garantiu que falaria à tarde, mas ele deixou o local e não apareceu em seu gabinete. Um assessor, por nome de Rudnei, prontificou-se em fazer contato conosco, porém seu telefone ficou a tarde inteira desligado.

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